O segredo da economia
João Claudio Arroyo*
A compreensão do Fluxo Econômico ou, mais precisamente, do fluxo circular da renda, facilita muito o entendimento do fenômeno econômico. Aqui, contando uma estorinha curiosa, sobre uma pequena cidade em crise, é possível compreender como o valor do giro das trocas é mais significativo que o valor do dinheiro acumulado. Confira.
Uma pequena e pacata cidade do interior passava por uma grave depressão econômica. Como ela fica em uma região árida, a seca naquele ano veio forte e quebrou a produção agrícola que sustentava a economia local. Sem a produção a renda caiu muito, os salários atrasaram e as dívidas rolavam. Com tudo isso, todos estavam muito nervosos o que ameaçava até a costumeira passividade de seus moradores.
O clima era mesmo tenso, até que um dia, um viajante, de passagem pela cidade, cansado e adoentado resolveu se hospedar no único hotel do lugar. Entrou e perguntou:- Quanto é a diária?
- 30 reais, mas faço por 25, preço especial para os amigos; respondeu o dono, que era também o atendente, e que sorria amarelo tentando ser simpático e disfarçar o nervosismo diante de uma oportunidade que não poderia perder de jeito algum.
Cansado e sem alternativa, o viajante tirou uma cédula de 100 reais, colocou em cima do balcão e disse,
- OK, acho que vou precisar de 4 dias para me recuperar. Tome logo o pagamento.
O dono do hotel, mal esperou para o hóspede dobrar o corredor, deu três pulos soqueando o ar, se ajoelhou com as mãos para o céu e vibrou como se fosse gol da seleção em final da copa do mundo, mas tudo em silêncio para o visitante não desconfiar da penúria que passava.Mas nem pode curtir muito aquele momento de glória. No mesmo instante se ergueu e lembrou do açougueiro brutamontes que lhe cobrava aborrecido todo santo dia a carne que lhe fornecia para que o hotel oferecesse comida aos hóspedes.
Não chegou nem a colocar a cédula de 100 em sua gaveta. Foi direto ao bolso e seguiu para o açougue.
No caminho, ele foi pensando nas poucas e boas que diria àquele “Schwazenegger do sertão“ que não lhe deixava em paz. Mas, chegando lá, viu que além de forte e grande o açougueiro tinha uma habilidade fantástica com facas e cutelos. Desistiu da primeira idéia e estrategicamente disse:
- Grande mano velho, o que seria desta cidade sem você, já estou com seu dinheiro, foi o primeirinho que consegui nesta crise braba, mas sabe como é, você pra mim é mais que um irmão.
O “mano velho” parou de golpear uma costela de boi que limpava, olhando de banda tirou o suor da testa com a costa da mão esquerda e com a outra, a mesma que segurava o cutelo, pegou a nota de 100 reais que o dono do hotel lhe estendia. Foi no caderno, somou e ainda lhe devolveu 10 reais de troco – a dívida era de 90. Tudo sem dar uma palavra. Ao que seu visitante respondeu:
- É isso aí simpatia; e saiu rápido sem olhar para trás porque tinha ido no limite de sua ousadia já que, ainda que ínfima, havia uma distante possibilidade do açougueiro entender a ironia, o que deixaria a situação bastante complicada. Mas, sem dúvidas a felicidade era maior que o medo e, de qualquer modo ele tinha sido, ao final, muito duro com aquele “Hulk da caatinga” que agora, com certeza, “se mancou com a minha cara”.O açougueiro, apesar da aparência, não era tão rude assim e tinha entendido a ironia do dono do hotel, mas nem chegou a se aborrecer. Tinha uma outra aflição que fazia aquela montanha de músculos tremer com a nota de 100 reais na mão. Era a grande oportunidade que a crise lhe havia tirado. Com aquela nota de 100 reais ele poderia ir pagar a jovem costureira de quem encomendara um jogo de aventais só porque queria chegar um pouco perto de seu grande amor, que há muito guardava platonicamente naquele coração sensível que mal pulsava de tristeza por baixo daquele tórax de ferro. Era um açougueiro apaixonado. Arrancou o avental de lado, com uma braçada baixou a porta de enrolar e, quase voando, foi à casa da jovem costureira.
A cada passo, seu coração disparado lhe chegava mais perto da boca, o nervoso secava a garganta o que lhe fazia tossir e, decidido a se declarar, arrancou da praça pública umas flores – ao que o prefeito, que passava, desviou o olhar para não ter que tomar uma atitude – e seguiu sem sentir os pés.
Na porta do atelier, antes de entrar, ele logo viu o seu grande amor concentrada, na máquina de costura e seu coraçãozinho se encheu de ternura e, decidido, entrou.Mas traído pela timidez mais brutal que ele próprio, ao ser recebido pelo olhar da jovem costureira, disse:
- Toma aqui o dinheiro que estava te devendo, com as sobrancelhas fechadas. Ai, ai, quem pode entender o amor...
Mesmo diante de tanta determinação, a jovem se levantou e disse:
- Já não era sem tempo; puxando o canto da boca.
Foi numa caixa de sapato, devolveu 5 reais e deu o assunto por encerrado:
- Tome seu troco e muito obrigada; voltando para a máquina de costura.
Um minuto depois, enquanto o açougueiro chorava sentado na calçada da rua ao lado diante da perda do imperdível, a jovem costureira espantada, arregalava os olhos ao lembrar que se não pagasse, naquele instante, o médico que vinha da capital e atendia no município uma vez por semana naquele mesmo dia, sua mãe ficaria sem a única forma de acompanhamento de sua diabetes já avançada.
Fechou o atelier correndo, colocou o melhor vestido e, na outra esquina entrou na fila para ser atendida. Só tinha um na sua frente, mas foi logo atendida, quando disse que era para pagar as consultas.
- Doutor, olhe, eu tive dificuldade financeira, o senhor sabe da crise que a cidade está passando com esta estiagem, me desculpe, mas só agora eu consegui o dinheiro para lhe pagar.
O médico pegou o recibo preencheu e disse:
- Duas consultas, 40 reais cada, total de 80. E aqui está seu troco, 20 reais. E pode trazer sua mãezinha na próxima semana e passe bem.
A jovem costureira agradeceu e seguiu aliviada. O mesmo alívio que o doutor começava a sentir, já que poderia quitar sua despesa no hotel. Isso mesmo, aquele do corajoso que desafiou o açougueiro apaixonado, lembra?Mas, mal o dono do hotel pegava a nota de 100 reais que o médico lhe entregava pagando as 4 diárias que devia, o viajante vem dobrando o corredor de volta, muito aborrecido:
- Desculpe mas não vou ficar, estou há uma hora tentando abrir a janela e não consigo, passei um tempão esperando o chuveiro esquentar e nada, a água é amarela, o Sr. não limpa a caixa dágua? Não sabe que isso pode dar dengue? Eu já estou doente, o Sr quer me matar? E, contrariado, pegou na marra o seu dinheiro que estava na mão do dono do hotel e saiu para sempre sem escutar que o dono lhe explicava que com a crise ele não conseguia fazer a manutenção necessária etc, etc.
Mas, o incrível é que depois que cada um fez as contas, ninguém ficou aborrecido e voltaram a planejar o futuro.
Faça as contas você também e descubra onde está o segredo da economia. Nas trocas ou no cofre?
*João Claudio Arroyo, membro do Fórum Brasileiro e Paraense de Economia Solidária, Msc em economia, reeditando texto sem autor recebido pela web.
Em 09032011

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